Estudo: toque de quem se ama diminui a dor e sincroniza batimentos cardíacos


Pesquisa mostra que sincronicidade entre casais afeta a respiração e os batimentos cardíacos, tendo, inclusive, efeitos ‘analgésicos’.

05 de julho de 2017     Por Redação WebContent

 

Homens, prestem atenção: o simples ato de segurar a mão de sua parceira – seja ela sua namorada, noiva ou esposa – pode sincronizar suas frequências cardíacas e respiratórias. Como se isso não bastasse, o toque ainda tem o poder de aliviar a dor da pessoa amada.

Esta é a impactante conclusão de uma pesquisa científica realizada na Universidade de Colorado, em Boulder, Estados Unidos, e publicada no último mês no periódico Scientific Reports.

 

SINCRONICIDADE INTERPESSOAL – UM AFETANDO O OUTRO

plateia no cinema - sincronicidade

Sincronicidade: estudos prévios demonstraram que a plateia de filme dramático mantém batimentos cardíacos em forte sincronia.

 

A sincronicidade dos ritmos biológicos do corpo com pessoas ao nosso redor pode ocorrer a qualquer momento, independentemente do grau de afinidade com o outro.

O estudo em questão aborda uma área do conhecimento chamada de sincronicidade interpessoal. Nela, cientistas estudam o fenômeno pelo qual diferentes indivíduos começam a ‘espelhar’ o comportamento de outras pessoas, mesmo de maneira inconsciente, desde que tenham proximidade com elas e independentemente do grau de empatia. Exemplos cotidianos incluem:

  • sincronizar o ritmo dos passos com uma pessoa que está andando com você,
  • ajustar a postura para espelhar à de um amigo durante uma conversa,
  • a sincronização de batimentos cardíacos e taxas respiratórias entre os membros de um coral

Além disso, estudos recentes mostraram que, quando duas pessoas assistem a um filme dramático juntas, suas frequências cardíacas e ritmos respiratórios ficam em sincronia. Os batimentos do coração e a taxa respiratória também atingem uma sincronia quando um casal está simplesmente na presença um do outro.

 

COMO TESTAR A SINCRONIA ENTRE UM CASAL

artigo toque e sincronicidade pessoalCom base neste conhecimento prévio – e em um acontecimento pessoal que veremos a seguir –, os pesquisadores decidiram explorar, pela primeira vez, a sincronicidade humana no contexto da dor e do toque.

O primeiro autor do estudo, o neurocientista Pavel Goldstein, do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Afetiva da Universidade do Colorado, conta como pensou na ideia para o experimento após estar presente no parto de sua filha, que hoje tem quatro anos de idade.

“Minha esposa estava sentindo muita dor e tudo que eu pensava era ´o que eu posso fazer para ajudá-la?´. Então eu segurei a sua mão e isso pareceu diminuir o sofrimento”, ele recorda. “Eu quis testar [essa hipótese] no laboratório: seria possível aliviar a dor com um toque – e, se sim, como isso funcionaria em termos biológicos?”.

hora do parto - toque de maos entre o casal

O toque do parceiro pode diminuir consideravelmente a sensação de dor, agindo com forte efeito ‘analgésico’, aponta estudo.

 

Goldstein recrutou, então, 22 casais heterossexuais, de idades entre 23 e 32 anos, e os colocou em uma série de situações padronizadas enquanto monitorava as frequências cardíacas e o ritmo respiratório. Primeiramente, o casal sentava em uma mesma sala, mas sem se tocar; depois, seguravam as mãos e, por último, ficavam em salas separadas. Esta foi apenas a primeira etapa dos estudos.

Diversos testes analisaram a sincronicidade entre o casal em situações ‘normais’ e de ‘dor’ para a mulher

Na segunda etapa, os casais passavam novamente pelos três cenários – a diferença é que, agora, a mulher era submetida a uma dor moderada em seu antebraço, por um período de dois minutos.

Os resultados fortaleceram o corpo de evidências da sincronicidade interpessoal. Como estudos anteriores já haviam demonstrado, os casais apresentaram algum grau de sincronicidade meramente por estarem sentados na mesma sala. Entretanto, quando a mulher estava com dor e o homem não podia segurar sua mão, a sincronização de batimentos cardíacos e da taxa respiratória era interrompida. Depois, quando ficavam de mãos dadas, suas frequências cardiorrespiratórias voltavam a se harmonizar, ao mesmo tempo em que a dor da mulher diminuía.

“Aparentemente, a dor interrompe completamente a sincronicidade interpessoal entre o casal, e o toque a traz de volta”, diz Goldstein.

E mais: os efeitos ‘analgésicos’ mostraram-se ainda mais fortes se o casal possuía vínculos afetivos de longa data. “Quanto mais empático o parceiro, mais fortes os efeitos analgésicos e maior era a sincronização entre os membros do casal enquanto eles se tocavam”, explica o cientista.

 

CONCLUSÕES & HIPÓTESES

sincronicidade entre o casalAinda não está claro, entretanto, se o alívio da dor aumenta a sincronicidade ou vice-versa. “Pode ser que o toque seja uma ferramenta para comunicar empatia, o que resulta em um efeito analgésico”, avalia Goldstein.

Interessantemente, os pesquisadores mediram, também, a atividade cerebral dos participantes e pretendem publicar os resultados em estudos futuros. Além disso, anunciaram que mais pesquisas são necessárias para investigar os mecanismos pelos quais o toque alivia a dor. Mas hipóteses já existem. Goldstein suspeita que a sincronicidade interpessoal tenha um papel importante na evolução humana, possivelmente por afetar uma área do cérebro chamada de córtex cingulado anterior, que é associada à percepção da dor, à empatia e a funções cardíacas e respiratórias.

Por enquanto, o cientista pode apenas aconselhar aos homens que estão prestes a se tornarem pais: mantenham contado físico com suas parceiras. Vocês têm em mãos (literalmente!) um ‘medicamento’ extremamente poderoso contra a dor.

 

 

PARA SABER MAIS: The role of touch in regulating inter-partner physiological coupling during empathy for pain. Por Pavel Goldstein, Irit Weissman-Fogel & Simone G. Shamay-Tsoory. Scientific Reports 7, Article number: 3252 (2017)

 

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