Muito Black Mirror: inovações da série podem virar realidade em breve


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Reportagem do jornal Correio Braziliense entrevista pesquisador do BRAINN sobre rumos da neurotecnologia e seu impacto em nossas vidas.

01 de fevereiro de 2018     | Correio Braziliense

 

Divulgação

Um prédio pouco movimentado, à beira de uma estrada e pintado todo de preto, contém, em seu interior, uma exibição das tecnologias mais avançadas que a imaginação pôde criar. Uma visita ao local revela — entre alguns dispositivos familiares — aparelhos capazes de transferir sensações de uma pessoa para outra, objetos contendo cópias exatas de mentes humanas e hologramas conscientes. O museu aparece na mais recente temporada de Black Mirror, série aclamada por brincar com os limites da tecnologia, e tem aparelhos que parecem ficção científica. Mas, talvez, o que mais impressione é que os episódios são baseados em algumas tecnologias já existentes, o que nos faz pensar sobre o tipo de mundo que estamos construindo com o progresso tecnológico.

Lançada no fim de dezembro, a quarta temporada traz às telas discussões recentes da comunidade científica. Um tema com bastante destaque são as interfaces entre o cérebro e um computador, que, na série, permitem que um personagem entre completamente em um videogame de realidade virtual ou que uma mãe monitore tudo o que a filha vê. Na realidade, as BCIs (Brain-Computer Interface) são postas em prática nos laboratórios, principalmente os das áreas médicas. Elas leem a atividade cerebral de pacientes e permitem que se controlem uma prótese ou um computador, por exemplo, apenas com o pensamento.

“Uma BCI é, basicamente, um aparelho cujo objetivo é detectar ondas cerebrais e traduzi-las para um sistema computacional. A ideia é compreender o desejo da pessoa. Se ela quer, por exemplo, mover o cursor de um mouse”, explica Alcimar Barbosa, coordenador do Laboratório de Engenharia Biomédica da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A primeira etapa da tecnologia consiste em captar as ondas cerebrais, o que pode ser feito dentro ou fora do cérebro. Muitas aplicações atuais instalam sensores em um capacete, que, ao entrar em contato com o couro cabeludo, consegue ler as ondas eletromagnéticas emanadas pelo órgão. “Mas a caixa craniana é um isolante. O sinal chega atenuado, com muito ruído”, afirma Fernando Von Zuben, professor e pesquisador do Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia, o BRAINN, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A alternativa é implantar os sensores dentro do cérebro, o que requer uma cirurgia e traz outros tipos de problemas, como riscos de infecções e perda de eficiência ao longo do tempo, pois os dispositivos invasivos tendem a se oxidar.

Em Black Mirror, duas opções são exibidas. Coloca-se um aparelho do tamanho de uma moeda sobre a têmpora de um personagem para transportá-lo a um ambiente virtual. Outra saída, mais invasiva, é injetar o dispositivo no cérebro com uma seringa. O procedimento, porém, não se compara à cirurgia cerebral usada para implantar sensores em pacientes reais. Além disso, é difícil pensar em um único sensor que consiga captar informações suficientes. “O cérebro não funciona em caixinhas, ele funciona todo de uma vez”, afirma Barbosa. Segundo o professor da UFF, é preciso posicionar diversos sensores em regiões diferentes do órgão para captar uma fração das ondas geradas. “Nós coletamos as informações que podemos, mas isso gera uma imprecisão. Não podemos captar todo o cérebro a todo tempo”, pondera.

 

Benefícios médicos

A medicina assistiva é a área que, hoje, mais utiliza as BCIs. Em fevereiro passado, por exemplo, pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, demonstraram, na revista eLife, uma interface que permite a pacientes com paralisia digitar e controlar o cursor do mouse diretamente com o cérebro. Nos testes, o dispositivo superou em três vezes a velocidade de escrita dos anteriores: os participantes conseguiram digitar até oito palavras por minuto. O resultado é baixo se comparado à velocidade média que uma pessoa consegue digitar, cerca de 40 palavras por minuto, o que mostra a dificuldade de se traduzir em tempo real a intenção de alguém para um computador.

No Brasil, esse tipo de pesquisa é bastante forte. Um dos mais conhecidos é o Projeto Andar de Novo, coordenado pelo pesquisador Miguel Nicolelis. Ele usa exoesqueletos controlados por BCIs para ajudar na recuperação de pacientes com deficiências motoras. Em 2016, em estudo publicado na revista Scienific Reports, mostrou como, após um ano de treinamento com os dispositivos, pessoas paraplégicas recuperaram parte das sensações e do controle muscular.

Segundo Von Zuben, à medida que as pesquisas superarem dificuldades técnicas, as BCIs podem ser aplicadas de diversas formas. Existem, inclusive, cientistas que se preparam para quando tivermos os meios de transferir completamente uma consciência para um computador ou para uma realidade virtual, exatamente como acontece em Black Mirror. “Com a evolução da capacidade de classificar os sinais do cérebro, não há muito limite para essa tecnologia. Ela pode trazer conclusões impressionantes. Será possível, por exemplo, descobrir se uma pessoa está mentido ou falando a verdade, até inserir alguém em mundos virtuais.”

 

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