Parkinson afeta mais a população idosa; entenda como ela age e seus tratamentos


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O que é a doença de Parkinson e como ela age no cérebro? Entenda os desafios de pesquisas e tratamentos do Parkinson, cujo Dia Mundial de Conscientização é lembrado este mês.

08 de Abril de 2016

por Erik Nardini Medina *

 

A Doença de Parkinson (DP), popularmente conhecida como Mal de Parkinson, é uma doença degenerativa crônica e progressiva que afeta o sistema nervoso central. A Organização das Nações Unidas estima que 1% da população mundial sofra com a Doença de Parkinson, enquanto no Brasil o número se aproxima de 200 mil. Em 11 de abril foi celebrado o Dia Mundial de Conscientização da Doença de Parkinson.

O quadro clínico é composto por quatro sintomas principais: lentidão acompanhada ou não de diminuição de movimentos voluntários, rigidez dos músculos, dificuldade de equilíbrio e os tremores, que atingem as extremidades como pés e mãos e afeta tarefas que antes eram simples, como caminhar, ler um jornal ou se alimentar. O Parkinson ainda não tem cura.

 

ENTENDENDO PRA VALER: DOPAMINA, NEUROTRANSMISSORES E NEURÔNIOS

conexões cerebrais Parkinson 2

As conexões entre as células cerebrais ficam comprometidas em quem desenvolve Parkinson.

 

A ciência é cheia de termos e jargões que, por suas especificidades, às vezes confundem mais do que explicam. Vamos colocar os pingos nos is? A DP é causada por uma drástica diminuição na produção de dopamina. Dopa o quê…? A dopamina é uma substância química (neurotransmissor) produzida pelos neurônios (células do sistema nervoso) em uma região encefálica conhecida como substância negra.

O papel dos neurotransmissores é enviar mensagens para outros órgãos do corpo humano. A dopamina, especificamente, por meio de receptores, age em determinadas áreas do cérebro, notadamente nos núcleos da base, levando ao planejamento correto dos movimentos.

Então, quando as células do sistema nervoso (cérebro) diminuem a produção desse neurotransmissor, a Doença de Parkinson se manifesta, o que costuma acontecer com pessoas mais idosas, normalmente a partir dos 65 anos. Como a DP ainda não tem cura, os tratamentos atuam de maneira a amenizar os sintomas por meio de drogas que agem diretamente no sistema nervoso.

“De uma forma geral, a ideia central dos tratamentos com medicamentos é atuar na reposição da dopamina, que é o principal neurotransmissor afetado pela doença e responsável principal pela bradicinesia (lentificação dos movimentos) e pela rigidez”, explica a Dra. Anelyssa Cysne Frota D’Abreu, pesquisadora do BRAINN.

 

LEGISLAÇÃO BRASILEIRA TRAVA PESQUISAS COM NOVOS (E ANTIGOS) MEDICAMENTOS

MRI e imageamento cerebral médico

Para D’Abreu, os tratamentos no Brasil poderiam estar muito mais avançados do que estão hoje. A pesquisadora relata que na Unicamp não há estudos com drogas sendo desenvolvidos apesar de oportunidades para novos estudos já terem sido cogitadas. “Fomos abordados diversas vezes, mas os empecilhos impostos pela nossa legislação dificultam em muito a nossa inclusão em estudos clínicos multicêntricos. Há várias drogas em estudo no momento ou próximas da liberação, seja em outros países ou no Brasil, como a safinamida, o Rytary (IPX066, Impax Pharmaceuticals), e a duodopa que, no entanto, não mudam drasticamente o tratamento atual da doença”, conta.

“Os empecilhos impostos pela nossa legislação dificultam em muito a nossa inclusão em estudos clínicos multicêntricos”, explica a pesquisadora Anelyssa D’Abreu, do BRAINN

A pesquisadora constata que, no Brasil, o grande problema da população é quanto ao acesso aos tratamentos disponíveis. “Por exemplo, até hoje não dispomos de cirurgia para o tratamento da Doença de Parkinson na Unicamp. Não porque não temos pessoas treinadas para isso, ou interesse, mas por falta de recursos. A última que realizamos foi com doação de uma empresa. Além disso, drogas disponíveis em outros países demoram muito tempo para chegar aqui. A Rasagilina foi aprovada há cerca de dez anos nos EUA e só agora chegou ao Brasil. A Apomorfina é uma droga antiga, utilizada em pacientes graves, e não está disponível aqui também”, avalia.

 

ESTUDOS CLÍNICOS E DE NEUROIMAGEM: UM PASSO À FRENTE

Apesar de as pesquisas com novas drogas estarem caminhando devagar, os estudos com neuroimagem desenvolvidos na Unicamp seguem promissores. “Todos os pacientes realizam ressonância magnética (RM). Além disso, nós revemos as histórias clínicas dessas pessoas, fazemos exames físicos e neurológicos detalhados e aplicamos escalas clínicas para observar a presença de alterações psiquiátricas e cognitivas, explica a pesquisadora do BRAINN. “Estamos avaliando quais fatores clínicos ou radiológicos influenciam na progressão da doença e na sua manifestação”, acrescenta.

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Anelyssa D’Abreu. Imagem: Youtube

Os estudos estão entrando agora em uma fase longitudinal, que prevê o acompanhamento dos pacientes repetidas vezes para avaliar sua evolução clínica e radiológica. “Estamos em fase de conclusão da primeira etapa dos estudos clínicos e de neuroimagem. Conseguimos demonstrar que o envolvimento cerebelar [o cerebelo é a parte do encéfalo que responde pelo equilíbrio e pelos movimentos involuntários] está presente nestes pacientes, em especial naqueles cujo tremor é o sintoma predominante”, explica D’Abreu. A pesquisadora revela que a presença de lesões na substância branca (vias de comunicação entre o sistema nervoso central e os outros órgãos) nestes pacientes “contribui para uma piora dos sintomas motores e parece levar a uma progressão mais rápida da doença”, conclui.

 

BRAINN PROMOVE AÇÃO SOBRE A DOENÇA DE PARKINSON

Como parte das ações do Dia Mundial de Conscientização da Doença de Parkinson, o BRAINN promove, no próximo dia 14 de abril, uma série de atividades com pacientes e familiares. A ação acontecerá no Ambulatório de Neurologia do Hospital de Clínicas da Unicamp a partir das 9h30.

 

* Jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), aluno da especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp). É bolsista MídiaCiência/FAPESP.

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