Estudo: cérebro trabalha ativamente para ‘se esquecer’


Pesquisa aponta mecanismos utilizados pelo cérebro para ‘deletar’ memórias, o que pode melhorar a tomada de decisões.

05 de julho de 2017     Por Redação WebContent

 

Se alguém lhe pergunta o que significa ter uma boa memória, o que você responderia?

Quem acredita que a resposta seja “lembrar-se claramente de muitas informações por um longo período de tempo” – a definição ‘clássica’ da memória – talvez esteja errado. É o que indicam os resultados de uma recente revisão científica sobre como o cérebro armazena informações, realizada por neurocientistas da Universidade de Toronto, no Canadá.

Estudo mostra que o principal objetivo da memória não é armazenar informações de maneira precisa por muitos anos.

De acordo com o estudo, o principal objetivo da memória não é armazenar informações de maneira precisa por muitos anos. Ao invés disso, seu papel seria o de guiar e otimizar o processo de tomada de decisões – retendo, para isso, apenas as informações mais valiosas. As outras informações – aquelas que são pouco úteis para decidirmos qual rumo tomar – seriam devidamente ‘eliminadas’.

 

ESQUECER NÃO É TÃO RUIM ASSIM

No estudo, publicado na última edição do periódico científico Neuron, os pesquisadores argumentam que nosso cérebro trabalha ativamente para esquecer. Assim, o que por muito tempo foi considerada uma falha nos mecanismos cerebrais de armazenamento e recuperação de informações pode ser, na verdade, um processo que nos ajuda a tomar decisões mais certeiras em nosso cotidiano.

Este conceito pode parecer contra intuitivo, mas os pesquisadores defendem que esquecer é tão importante quanto lembrar.

De acordo com o estudo, que fez uma revisão de diversas pesquisas relacionadas à memória e ao esquecimento, a literatura científica está revelando que esquecer é um componente tão importante dos nossos mecanismos de memória quanto lembrar.“É importante que o cérebro se esqueça de detalhes irrelevantes e, em vez de guardar [esse tipo de informação], se concentre naquilo que irá nos ajudar a tomar decisões”, diz o pesquisador Blake Richards, membro do grupo de Aprendizado em Máquinas & Cérebros da Universidade de Toronto e um dos autores do artigo.

“Nós encontramos várias evidências de pesquisas recentes que mostram que há mecanismos que promovem o esquecimento, e que eles são distintos daqueles envolvidos no armazenamento de informação”, diz o cientista Paul Frankland, co-autor do artigo e membro do grupo de estudo de Crianças & Desenvolvimento Cerebral do Canadian Institute for Advanced Research.

Mas como exatamente esquecer de detalhes e reter apenas as informações mais importantes podem nos ajudar a tomar decisões melhores? Os pesquisadores citam duas hipóteses interessantes.

 

ADAPTAÇÃO: FILTRANDO APENAS O ESSENCIAL

tentando se lembrar - cerebro

Em primeiro lugar, esquecer pode ajudar na adaptação a novas situações. Ao descartar informações desatualizadas e que podem potencialmente nos prejudicar, o esquecimento nos auxilia a lidar com ambientes que estão em constante mudança.

“Se você tenta navegar pelo mundo e seu cérebro está constantemente trazendo à tona várias memórias que se contradizem, isso pode tornar mais difícil tomar uma boa decisão”, explica Richards.

Além disso, esquecer facilita o processo de tomada de decisão ao permitir generalizar informações antigas para aplicá-las em novas situações. Quando nos lembramos apenas da essência de uma situação, o processo de esquecimento seletivo das particularidades cria memórias ‘simples’ desse evento. Tais memórias ‘resumidas’ são muito mais efetivas para serem aplicadas em novas situações do dia a dia. Se, ao invés disso, nós nos lembrássemos de todos os pormenores de cada memória, seria mais difícil tirar conclusões a partir das experiências e utilizá-las como base para novas tomadas de decisão.

Esse princípio é utilizado, inclusive, na área de inteligência artificial, em que é conhecido como regularização, e funciona ao criar modelos computacionais simples que priorizam informações essenciais e eliminam detalhes extremamente específicos e supérfluos, o que permite ao modelo ser utilizado em uma gama mais ampla de aplicações.

 

COMO O CÉREBRO SE ESQUECE DE DETERMINADAS MEMÓRIAS?

Um dos mecanismos do ‘esquecimento proposital’ do cérebro proposto pela literatura científica é o enfraquecimento ou eliminação das sinapses – as conexões entre os neurônios – nas quais a memória está codificada.

Um ambiente que muda constantemente requer menos formação de memórias de longo prazo.

Outro mecanismo, que é apoiado por evidências do próprio laboratório de Frankland, é a geração de novos neurônios a partir de células tronco. Ao se integrarem no hipocampo – região do cérebro associada à memória –, os novos neurônios criam conexões inéditas, as quais remodelam os circuitos cerebrais e gravam novas memórias “por cima” daquelas que já estão armazenadas nesses circuitos, tornando as antigas mais difíceis de serem acessadas. Esse mecanismo pode explicar, inclusive, o motivo pelo qual crianças, cujo hipocampo está produzindo novos neurônios constantemente, se esquecem de informações mais facilmente do que os adultos.

Os cientistas dizem, também, que o acionamento desses mecanismos do esquecimento depende muito do ambiente no qual vivemos. Um ambiente que muda constantemente requer menos formação de memórias de longo prazo – por exemplo, um taxista que conhece várias pessoas diferentes todos os dias tende a se lembrar dos nomes apenas por um curto período de tempo. Já o porteiro de um prédio residencial, que encontra os mesmos moradores regularmente, tende a se lembrar dos nomes de vários deles por um período maior (mesmo que não faça nenhuma atividade de reforço, como cumprimenta-los diariamente).

sinapses cerebrais

A geração de novos neurônios pode ‘sobrescrever’ memórias antigas, eliminando-as.

 

“Um dos fatores que distinguem um ambiente em que você vai querer lembrar de informações de um ambiente em que você vai querer esquecer informações é o quão consistente ele é, ou seja, quão provável é que as mesmas coisas aconteçam repetidamente em sua vida”, diz Richards.

De forma similar, pesquisas mostram que nos lembramos por mais tempo de informações que acessamos todos os dias. Quando passamos muito tempo sem usar uma determinada informação, tendemos a esquecê-la. E, como a Ciência está nos mostrando, isso pode não ser tão ruim assim.

 

 

PARA SABER MAIS: The Persistence and Transience of Memory, por Blake A. Richards & Paul W. Frankland. Neuron, Volume 94, Issue 6, p1071–1084, 21 June 2017.

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