BIPMed e o primeiro banco de dados genéticos público da América Latina


blog BRAINN - reportagem BIPMed

Através do projeto BIPMed, médicos e cientistas querem usar informações do seu DNA para tratar doenças.

06 de Maio de 2016

por Erik Nardini Medina *

 

É provável que você já tenha ouvido falar sobre Medicina de Precisão, um conceito que tem contribuído para criar as bases da área médica no século 21. Essa novidade engloba o que há de mais atual na medicina, como a genômica, que se utiliza de dados genéticos de larga escala para o diagnóstico e tratamento de doenças, e a medicina personalizada.

Hoje em dia nós fazemos a medicina para a maioria, mas nós sabemos que existem diferenças individuais, que cada indivíduo manifesta a doença à sua maneira e responde ao tratamento à sua maneira. Só que a medicina atual não leva em conta essas individualidades. Então, a medicina personalizada procura, por meio do estudo de fatores genéticos que caracterizam cada indivíduo, fazer um tratamento mais personalizado para cada indivíduo levando em conta as suas diferenças”, explica a doutora Iscia Lopes Cendes, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Neurologia e Neurociências (BRAINN).

 

 

BIPMED: INOVAÇÃO À BRASILEIRA

O interesse pela chamada medicina de precisão motivou a criação, em novembro de 2015, do BIPMed (Brazilian Initiative On Precision Medicine), um projeto que reúne cinco grandes centros de pesquisa multidisciplinares com o objetivo de implantar esse novo conceito de medicina no Brasil, é o que conta a pesquisadora do BRAINN que é um dos institutos envolvidos no BIPMED.

“O BIPMed surge como uma iniciativa para implantar esse tipo de medicina aqui no Brasil. Porque essa ideia de medicina de precisão é uma ideia que hoje corre o mundo todo. No começo do ano houve o lançamento pelo presidente Obama nos EUA de uma iniciativa grande para implantar esse tipo de medicina por lá, e nós achamos que também precisamos de uma iniciativa como essa no Brasil.”

 

DIFICULDADES CONTORNADAS

A pesquisadora relata que uma das dificuldades para aplicar a medicina de precisão no país está na falta de informações genômicas da população brasileira. Nesse sentido, os pesquisadores desenvolveram o primeiro banco de dados genéticos público da América Latina.

“Muitos dados genômicos da população brasileira foram gerados, mas eles estão guardados nos arquivos dos pesquisadores, nos computadores individuais”, explica Cendes.

doutora iscia lopes-cendes brainn

Dra. Iscia Lopes Cendes: “Fazemos a medicina para a maioria, mas sabemos que existem diferenças individuais” (ASCOM/Unicamp)

 

“O primeiro produto que o BIPMed lançou foi o primeiro banco de dados genômicos público da América Latina, e já depositamos dados da população normal brasileira e vamos continuar depositando. Qualquer pesquisador pode depositar seus dados e qualquer pessoa no mundo pode consultar”.

 

ACESSO A TODOS

Para o doutor José Franco, médico geneticista da PUC-Campinas, o BIPMed é um esforço inovador que abre perspectivas para a comunidade médica e científica de todo o mundo ao criar o que ele chama de redes e promover uma ciência aberta, participativa e proativa.

“O objetivo dessa iniciativa é integrar e incorporar essas informações em diversos níveis, abrindo novas possibilidades para a medicina genética diagnosticar e tratar da melhor forma possível. [Espera-se] que no futuro tenhamos um impacto significativo na saúde pública e que esse trabalho permita avanços na saúde de nossa população, assim como na pesquisa, necessária para que o país possa evoluir e avançar.”

 

CAMINHO É LONGO E PROMISSOR

A Doutora Iscia Lopes Cendes, do BRAINN, lembra que o trabalho ainda é bastante recente e que por isso há um longo caminho a ser percorrido para se estabelecer um banco de dados poderoso e, enfim, intensificar o exercício da medicina de precisão.

“Nós estamos começando da estaca zero. Vamos conhecer o que é o genoma da população brasileira normal. Aí sim nós vamos poder interpretar melhor qual é a variação genética identificada que possa estar causando doenças”.

 

PROJETO COLABORATIVO

Pesquisadores interessados em depositar dados genômicos no banco de dados, ou pacientes que tenham sido submetidos são convidados a compartilhar suas informações. Basta entrar em contato com os responsáveis pelo projeto no endereço www.bipmed.iqm.unicamp.br/genes.

 

* Jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), aluno da especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp). É bolsista MídiaCiência/FAPESP.