Estudo revela como as memórias de longo prazo são ‘apagadas’


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Trabalho científico mostra que há um processo ativo de ‘deleção’ de memórias acontecendo em nossos cérebros.

13 de Abril de 2016     Por Redação WebContent

Por que é tão difícil deixar de lembrar daqueles momentos traumáticos pelos quais passamos – e, ao mesmo tempo, é tão fácil esquecer completamente a matéria que vai cair na prova? Como é que funciona, em nosso cérebro, o mecanismo de formação e retenção de memórias?

Existe um processo ativo do cérebro que ‘apaga memórias’. Como isso influencia no aprendizado? E em nossas recordações do passado?

Parece estranho pensar que nossas experiências estão codificadas e guardadas no cérebro. Quando precisamos, às vezes basta a vontade de lembrar que elas logo vêm à mente. Outras vezes, podemos fazer um grande esforço, mas não conseguimos de jeito nenhum recordar o que queríamos – até que, sem avisos, aquela memória ressurge na cabeça. Ainda, é comum lembranças tristes ou traumáticas voltarem a nos assustar, mesmo quando não queremos mais saber delas. Existe um controle complexo da memória funcionando em nossos cérebros, cujo mecanismo a Ciência começa agora a entender em maior profundidade.

Uma pesquisa realizada por neurocientistas da Universidade de Edinburgh, na Escócia, traz novidades empolgantes para a compreensão do funcionamento da memória de longo prazo. Segundo o estudo, publicado na última edição do periódico científico The Journal of Neuroscience, nossas lembranças podem ser apagadas através de um processo ativo do cérebro.

Isto é, é possível que existam ‘faxineiros’ de memórias trabalhando no cérebro, ‘deletando’ algumas de nossas recordações.

A descoberta pode abrir novas possibilidades para compreender e tratar a perda de memória em condições como a doença de Alzheimer e certos tipos de demência, além de ajudar a decifrar os processos de recordações constantes de traumas antigos.

 

 

CONEXÕES CORTADAS – MEMÓRIAS PERDIDAS

Para entender a nova pesquisa, precisamos saber de alguns conceitos básicos. O cérebro humano é composto por centenas de bilhões de células, que se comunicam entre si através de sinais químicos. Esses sinais são mediados por uma variedade de receptores, presentes nas superfícies das células. Os receptores “recebem” os sinais de uma célula e ajudam a outra a “interpretá-los”. Este mecanismo básico é o que permite, em última instância, o funcionamento dos processos cerebrais, inclusive da memória.

Os receptores AMPA parecem ser o segredo para a retenção e deleção de memórias de longo prazo.

Alguns dos receptores encontrados em maior quantidade no sistema nervoso central são os chamados receptores AMPA. Pesquisas já haviam demonstrado que eles possuem uma forte relação com a memória de longo prazo. Em termos simples, quanto mais receptores AMPA houver na superfície das células, mais duradoura será a memória.

O que os pesquisadores escoceses mostraram no novo estudo foi que as células cerebrais podem passar por uma ‘limpeza’ desses receptores AMPA, durante a qual eles são retirados da superfície celular. Com isso, a comunicação entre células fica debilitada, assim como a retenção de memórias.

 

 

LEMBRAR É BOM, ESQUECER TAMBÉM

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Ao impedir o ‘sumiço’ dos receptores AMPA, a memória dos camundongos se manteve intacta.

 

Para provar esta ideia, os pesquisadores realizaram um teste inteligente. Eles impediram, através de medicamentos, a ‘deleção’ de receptores AMPA das células cerebrais de camundongos. Com isso, a memória dos bichinhos ficou muito mais forte, e eles passaram a se lembrar por mais tempo de certas recordações.

É possível, portanto, que o fato de nos esquecermos de alguma coisa seja decorrente não de uma dificuldade em ‘acessar’ a memória em nosso cérebro, mas sim de um processo de ‘deleção’ ativa, mediado pela perda de receptores AMPA.

“Nosso estudo olha para os processos biológicos que ocorrem no cérebro quando nos esquecemos de uma coisa. O próximo passo é entender por que algumas memórias sobrevivem, enquanto outras são apagadas”, escreveu o pesquisador Oliver Hardt, do Centro de Sistemas Cognitivos e Neurais da Universidade de Edinburgh e um dos autores do trabalho.

Será que o segredo da memória teria sido descoberto? Se pudermos evitar que as células cerebrais ‘deletem’ os receptores AMPA, poderemos ter memória eterna?

Tão importante quanto guardar informações é ‘limpar’ as antigas e menos utilizadas. Isso faz parte dos processos naturais de um cérebro saudável.

Recordar e se esquecer são processos normais do cérebro saudável

Recordar e se esquecer são processos normais do cérebro saudável

Não é bem assim, explicam os pesquisadores. Esquecer faz parte de um cérebro saudável. Deixar de lembrar de fatos e acontecimentos é normal e necessário para o aprendizado e a formação de novas memórias. Por isso, os cientistas estão cautelosos em relação aos resultados de seus experimentos. O que foi mostrado é que os receptores AMPA são vinculados à retenção de memórias, mas de que maneira isso está relacionado ao restante do complexo sistema de funcionamento do cérebro precisa, ainda, ser decifrado.

Novos estudos devem trazer maiores detalhes sobre como a memória humana é formada, retida e ‘deletada’. Por meio de experimentos como esse dos escoceses, a Ciência compreende cada vez mais a maneira de nosso cérebro funcionar e pode, assim, propor novos tratamentos e terapias para males de memória que afetam a vida de milhões de pessoas. Casos de stress pós-traumático, demência e Alzheimer são alguns exemplos de distúrbios que poderão receber novas terapias conforme a compreensão sobre a memória se aprimora.

“Se pudermos entender como estas recordações são protegidas, um dia poderemos desenvolver novas terapias que impeçam a perda patológica de memória, ou diminuam a velocidade desse processo”, afirmou, esperançoso, Oliver. Que estes desejos jamais saiam da memória dos pesquisadores!

 

PARA SABER MAIS: Migues PV et al. Blocking Synaptic Removal of GluA2-Containing AMPA Receptors Prevents the Natural Forgetting of Long-Term Memories. Journal of Neuroscience 23 March 2016, 36(12): 3481-3494.