Contato visual: você consegue manter o ‘olho no olho’ durante uma conversa?


decifrando o olho no olho

Talvez encarar uma pessoa e conversar, ao mesmo tempo, sejam tarefas que sobrecarregam nosso cérebro, sugerem cientistas japoneses.

18 de Janeiro de 2016

Para muitas pessoas, manter o olho no olho é quase impossível.

Quando estamos conversando com alguém, o contato visual é um dos elementos mais importantes da comunicação. Olhar nos olhos da pessoa transmite seriedade e interesse no diálogo. Aliás, pode ser que você já tenha ouvido falar que, em uma entrevista de emprego, por exemplo, é muito importante sempre fixar o olhar nos olhos do entrevistador, mostrando, assim, todo seu comprometimento com a conversa.

Para muitas pessoas, porém, manter o contato visual é uma tarefa complicada. Em determinadas situações sociais, ficar no ‘olho no olho’ é quase impossível. Se você é uma delas, irá achar interessante uma descoberta feita recentemente por cientistas japoneses.

Buscando entender os motivos pelos quais achamos difícil manter o contato visual ao longo de uma conversa, uma dupla de cientistas da Universidade japonesa de Kyoto criou um experimento criativo, que vamos explicar logo abaixo.

A partir dos resultados, os pesquisadores acreditam que quebrar o contato visual pode ser uma maneira não apenas de poupar embaraços sociais, mas também de evitar que nosso cérebro se sobrecarregue de informações.

Vamos entender essa história!

 

UMA MANEIRA DE PRIORIZAR O QUE É MAIS IMPORTANTE

mantendo o diálogo no olho no olho

Será que parar de encarar o outro é uma maneira intuitiva de nos concentrarmos em coisas mais importantes?

Por mais que o olhar seja importante em uma conversa, é difícil manter o olho no olho por muito tempo. Primeiro, porque pode ‘ficar estranho’ encarar o outro por longos períodos – será que a pessoa vai imaginar que estou apaixonado por ela? Segundo, porque a conversa pode estar chata, e a quebra do contato visual é um forte indicador de que o interlocutor está entediado. Algumas pessoas, também, podem se sentir desconfortáveis em encarar outras, por simples timidez. Há diversos motivos para a quebra do contato visual.

Mas e se esses motivos não fossem apenas sociais? E se deixar de observar o outro fosse uma maneira intuitiva de fazer nosso cérebro se concentrar em outras coisas mais importantes, e não na fisionomia da pessoa?

como manter o contato visual

Os cientistas Shogo Kajimura e Michio Nomura publicaram no último mês, no periódico científico Cognition, os resultados de experimentos que sugerem uma possível explicação para a quebra do contato visual. Segundo os pesquisadores, como o processamento verbal e o contato visual compartilham determinados processos mentais, às vezes precisamos ‘desligar’ uma dessas funções para que a outra funcione melhor.

Em outras palavras, se estivermos processando um desafio verbal complicado, é melhor desviar o olhar para que nossa mente se concentre apenas na resolução do problema. Em uma conversa complexa, a quebra do contato visual com o interlocutor pode ajudar o cérebro a encontrar aquela palavra exata de que estamos precisamos.

 

BRINCADEIRA COM PALAVRAS RELEVA SEGREDOS DO CÉREBRO

No experimento, 26 voluntários participaram de um jogo de associação de palavras. Os cientistas forneciam um substantivo e a pessoa tinha de dizer, rapidamente, um verbo relacionado a ele. Por exemplo, se o substantivo fosse ‘bola’, a pessoa poderia responder ‘chutar’, ‘jogar’ ou similares.

conversa olho no olho - a neurociencia explica

Talvez nós fiquemos preocupados demais com a fisionomia do outro durante uma conversa

Havia graus diferentes de dificuldade para as palavras. Associar verbos a substantivos como ‘bola’ ou ‘faca’ pode ser fácil, mas e se o substantivo fosse…‘folha’? Ou ‘céu’? Há tantas opções que fica difícil escolher apenas uma. Nessas horas, era de se esperar que a pessoa demorasse um pouquinho a mais para encontrar uma resposta certa.

Os voluntários jogaram este jogo tendo em sua frente a tela de um computador, com o vídeo de uma face humana os encarando. O vídeo às vezes mostrava desvios no olhar, às vezes mantinha o olho no olho por mais tempo.

Os cientistas perceberam um fato interessante. Toda vez que forneciam substantivos ‘difíceis’ para os voluntários, logicamente eles demoravam mais tempo para encontrar os verbos corretos. Porém, esse tempo era ainda maior se eles estivessem encarando a face no vídeo. Em outras palavras, quando o voluntário quebrava o contato visual, conseguia encontrar um verbo correto mais rapidamente.

evitando o contato visual

Algumas pesquisas anteriores já sugeriram ensinar às crianças evitar o contato visual enquanto estiverem pensando, justamente para se concentrarem melhor

 

Com isso, os cientistas sugerem que manter duas funções cognitivas intensas ao mesmo tempo (pensar em um verbo + manter o contato visual) pode ser exigente demais para o nosso cérebro. Para salvar capacidade de processamento, o cérebro instintivamente faz com que paremos com o contato visual, o que permite maior capacidade para encontrar a palavra certa e, assim, completarmos a tarefa que nos foi dada.

Da próxima vez que alguém reclamar que você não olha nos olhos enquanto conversa, diga que é por bons motivos: está deixando seu cérebro completamente focado no diálogo, procurando as melhores palavras para que sua conversa seja perfeita!

 

Referência Científica
Shogo Kajimura et al. When we cannot speak: Eye contact disrupts resources available to cognitive control processes during verb generation. Cognition (2016). DOI: 10.1016/j.cognition.2016.10.002

 

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